Jornada para Nyx

Sumário

Ajani, Mentor de Heróis

, author: "Kelly Digges", doc )

Uma brisa quente, levemente tocada pelo perfume de oliveiras e do mar distante, agitou o pelo de Ajani. Sussurrava através da grama amarela baixa e das folhas verdes brilhantes de árvores robustas e desgastadas pelo tempo.

De todos os mundos que visitara, Theros era o que mais parecia um lar. Mesmo seu próprio plano, Naya, não era mais o mundo que conhecera, tendo desde então se fundido com os outros quatro planos-fragmentos de Alara para formar um mundo inteiro, porém ferido. Mas Theros, protegida por entidades poderosas e eternas, sempre parecera imutável. Os habitantes locais as chamavam de deuses e, por uma vez, era difícil discordar.

Elspeth parecia achar confortante pensar que mentes maiores que a de qualquer mortal estavam vigiando-a. Ajani achava a ideia menos atraente. A experiência amarga o ensinara que qualquer ser poderoso o suficiente para ser adorado como um deus também era poderoso o suficiente — e pelo menos tão propenso a — destruir um mundo em vez de protegê-lo. Os deuses-beemotes de Naya eram apenas feras irracionais, seus movimentos formando padrões de migração mundana em vez de inspiração divina. O dragão Planinauta Nicol Bolas, cujo poder era verdadeiramente divino, manipulara séculos de desenvolvimento religioso e político nos fragmentos de Alara para facilitar seus próprios objetivos egoístas e destrutivos.

Ainda assim, Ajani não podia negar o poder e a majestade dos deuses de Theros, nem a beleza do plano que salvaguardavam. Talvez Elspeth estivesse certa, afinal.

Ajani caminhou o resto do dia, sobre colinas ondulantes cobertas de arbustos e subindo as montanhas, até captar o cheiro familiar de leoninos. Seu povo estivera ali, recentemente. Ele ainda estava a horas do que lembrava ser o território deles, mas não o surpreenderia se tivessem se expandido.

Planície | Arte de Adam Paquette

Ele acampou sob a luz que se esvaía, sem furtividade ou subterfúgio. Seu pelo branco brilharia como um farol na escuridão e, se houvesse leoninos por aqui, eles o encontrariam.

Conforme o sol se punha, as estrelas surgiam, e Ajani olhou para cima, ansioso para ver o espetáculo de luz e cor que preenchia o céu a cada noite, histórias de deuses e figuras míticas ecoadas em constelações que se moviam lentamente. O fenômeno era único em Theros e era belo.

Mas não esta noite. Esta noite, as estrelas estavam friamente indiferentes, o espaço entre elas preto e vazio. Pior, em um canto do céu, havia simplesmente um vazio, um vácuo onde nenhuma estrela brilhava. Ajani perguntou-se o que acontecera e o que Elspeth pensaria disso.

Elspeth. Seus pensamentos continuavam retornando a ela. Ele sabia que ela deixara Dominária, rumo ao mundo de metal de Mirrodin. Ajani conhecia os leoninos de lá e planejara visitá-los — primariamente como uma desculpa para procurá-la, se fosse perfeitamente honesto.

Então outros Planinautas espalharam a notícia: Mirrodin está morta. Phyrexia retornou. Pelo bem deste mundo e de todos os mundos, não ponham os pés lá.

Ele temia por Elspeth, e ainda mais por seus amigos em Mirrodin. Mas mantinha a esperança. Mesmo quando mundos morriam e céus escureciam, havia sempre esperança.

Elspeth poderia ainda estar viva.

O pensamento era um conforto ao qual ele se apegou enquanto adormecia.


Ele acordou, piscando para o amanhecer, olhando para um enorme machado empunhado por uma jovem leonina de pelo cinzento. Suas orelhas estavam dobradas firmemente para trás. O mais leve farfalhar nos arbustos dizia-lhe que havia mais dois leoninos cercando-o.

"Identifique-se", disse a jovem fêmea.

"Você é Seza", disse Ajani, bocejando, "e a última vez que estive aqui, você era jovem demais para sair em patrulha".

Os olhos de Seza arregalaram-se e suas orelhas se ergueram.

"Ajani?"

Ele sorriu.

"Pelo branco. Um olho. Machadão. Quem mais?"

Ela baixou o machado e sorriu timidamente. Ajani sentou-se, esfregando os olhos.

"Eu precisava ter certeza", disse ela. "Há coisas estranhas nas terras selvagens hoje em dia."

Arte de Adam Paquette

Ela sinalizou para suas companheiras.

"Este é Ajani Juba d'Ouro, um amigo de Oreskos."

Duas outras guerreiras, também fêmeas, surgiram de trás de Ajani.

"Aletha!", disse ele, batendo a mão no ombro da mais alta. "E... perdoe-me. Você é?"

"Koila", disse a terceira leonina. Ela olhou para Seza, que assentiu em confirmação. "Cresci nas terras selvagens e vim para Tethmos apenas recentemente."

"Koila", repetiu ele, fixando o nome em sua mente, junto com a imagem de seu pelo dourado manchado e a cicatriz entalhada acima de seu nariz.

"Venha", disse Seza. "Vamos levá-lo de volta para Tethmos. Você precisa ver o que Brimaz fez com o lugar."

"Brimaz!", disse Ajani. "Brimaz é rei? E Seza lidera patrulhas. Eu estive realmente fora por tanto tempo?"


Os quatro leoninos caminharam juntos pela maior parte do dia. Aletha sempre fora silenciosa e Koila provou ser ainda mais, então a conversa foi majoritariamente Seza atualizando Ajani sobre os acontecimentos entre os leoninos de Oreskos. A rainha, Omala, morrera em batalha contra humanos. Brimaz, seu sucessor escolhido, recusara-se a buscar vingança, uma escolha controversa que acabara por lhe render mais amigos que inimigos.

Quando Ajani estivera aqui antes, era evidente que Brimaz poderia ser rei algum dia. Ajani passara longas horas em conversa com o jovem sobre a importância da coexistência com a humanidade. Talvez suas palavras tivessem criado raízes.

Na fronteira do território da patrulha, suas companheiras afastaram-se para uma breve conferência em tons baixos. Quando terminou, Aletha e Koila despediram-se dele e voltaram, enquanto Seza gesticulou para que ele continuasse caminhando.

"Não quero tirá-la do seu dever", disse Ajani, embora estivesse grato pela companhia. "Conheço o caminho para Tethmos."

Seza balançou a cabeça e emparelhou o passo com ele.

"Não é isso. As coisas têm estado perigosas ultimamente. Os minotauros estão circulando mais amplamente que o usual, e em maior número. E não há como dizer o que os humanos farão, agora que..." Ela gesticulou para o céu ensolarado e vacilou.

"Você sabe algo sobre isso?", perguntou ele.

"Não muito", disse Seza. "Um dia, os deuses simplesmente... foram embora. Zangados com os mortais, ou assim dizem os humanos. Eu só digo que já foram tarde."

"E deixaram aquele anel de céu vazio?"

Ela o encarou por um momento, mas em sua visita anterior ele já ganhara a reputação de fazer perguntas estranhas.

"Aquilo apareceu há alguns dias", disse ela. "Nosso contador de histórias o chama de Fosso do Esquecimento, mas ele é tão sem noção quanto qualquer outro sobre o que aquilo realmente é."

Estavam agora bem dentro das fronteiras de Oreskos, a terra natal dos leoninos. No entanto, o sol se pusera e as estranhas estrelas esparsas haviam surgido quando transpuseram uma elevação e viram as fogueiras de vigia do antro de Tethmos, o maior assentamento individual de leoninos em Theros. A maioria dos leoninos era nômade — a maioria dos leoninos em todos os lugares era pelo menos parcialmente nômade, o suficiente para Ajani considerar isso parte de sua natureza — então mesmo seu maior assentamento dificilmente poderia ser chamado de cidade. Ainda assim, estava maior do que ele lembrava, com menos espaço aberto dentro de suas muralhas pintadas com cores vivas.

Seza e Ajani não eram estranhos e os portões estavam abertos. Atravessaram-nos sem serem contestados. Seza falou com um guarda próximo e os dois foram conduzidos ao salão do rei.

Havia um fogo rugindo no meio do grande salão e um javali assando sobre ele, o ar preenchido pelo cheiro suculento de carne selada. Um grupo de leoninos sentava-se ao redor do fogo. O maior e mais jovem deles estava de frente para a entrada e levantou-se quando Ajani e Seza entraram.

Ajani era alto para sua espécie, mas Brimaz era mais alto. O adolescente esguio da memória de Ajani crescera e tornara-se largo de ombros e autoconfiante, com traços marcantes e uma juba farta e fluida. Brimaz vestia roupas finas e uma coroa fina e denteada, concessões à sua posição, mas a rede de cicatrizes em seu ombro exposto marcava-o como um líder que não fugia das linhas de frente.

"Brimaz, velho amigo!"

Brimaz deu um passo à frente, de modo que Ajani teve que esticar o pescoço para olhar para o rosto do rei.

"É Rei Brimaz, agora", rimbombou ele.

Não houve som exceto o estalar do fogo.

Brimaz, Rei de Oreskos | Arte de Peter Mohrbacher

Ajani fitou os olhos dourados de Brimaz. Poucas pessoas conseguiam olhar diretamente no olho direito azul-claro de Ajani e no emaranhado de tecido cicatricial que fora um dia o seu esquerdo, mas Brimaz nunca recuara.

O canto da boca de Brimaz tremeu.

Ajani permitiu-se sorrir.

Brimaz bufou e logo os dois leoninos estavam rindo e se abraçando.

"Rei, agora, é?", disse Ajani, observando o jovem monarca à distância de um braço. "Devo chamá-lo de 'vossa majestade'?"

"Fah", disse o rei. "Brimaz serve. Mas eu deixei você preocupado ali, não deixei?"

"Nem por um momento", disse Ajani.

"Claro que não", disse Brimaz, com os olhos brilhando. "Sente-se. Coma. Tenho certeza de que viajou longe."

Brimaz não tinha plena consciência da verdadeira natureza de Ajani como Planinauta, mas certamente sabia que as origens do leonino mais velho, e suas viagens frequentes, nada tinham a ver com qualquer lugar de que os leoninos de Oreskos tivessem ouvido falar.

"É bom estar de volta", disse Ajani.

Ajani e Seza ocuparam seus lugares. Um dos conselheiros do rei retirou nacos de carne escorregadia do javali que assava na fogueira e os entregou aos recém-chegados. Ajani mordeu agradecido a carne de porco suculenta, com a gordura escorrendo pelo queixo.

"Meus agradecimentos por sua hospitalidade", disse ele com a boca cheia de comida. Visitante amado ou não, negócios antes do sustento era uma ofensa que nem mesmo ele seria perdoado.

Havia pequenas conversas ocorrendo ao redor do fogo, nenhuma sobre assuntos de importância. Somente quando Ajani estava lambendo a gordura de suas patas foi que falou.

"Como eu disse, é bom estar de volta."

"Mas não é por isso que você retorna a nós", disse Brimaz, sorrindo. "Você veio para me aconselhar, ou me pedir algo, ou me instar à ação. Eu recordo os caminhos de Ajani Juba d'Ouro, estranho e amigo."

Ajani sorriu.

"Você me conhece bem demais", disse ele. "Algum dia, talvez, eu venha aqui simplesmente para ver meus amigos. Valeria a jornada. Desta vez, receio que tenha razão. Estou aqui em busca de sua ajuda."

"Ajani é um amigo de Oreskos", disse Brimaz. "De que ajuda você precisa?"

"Estou aqui procurando uma amiga minha, uma humana", disse Ajani. "O nome dela é Elspeth."

"Ela é, como você, de longe?"

Ajani assentiu.

"E ela está em apuros?"

"Se ela está aqui", disse Ajani, "espero que isso signifique que ela não está mais em apuros".

"Mas se ela é como você", disse Brimaz, "imagino que os apuros tenham o hábito de encontrá-la".

Ajani assentiu novamente.

"Você deveria falar com Lanathos", disse Brimaz. "Ele é um cronista humano que está tentando aprender sobre nossos caminhos."

"Isso significa que você tem seguido meu conselho sobre a reconciliação?"

O restante dos leoninos ao redor da fogueira estivera conversando entre si, contentes em deixar o rei e seu velho amigo falarem em um simulacro de privacidade. Agora estavam quietos, com as orelhas em riste, ouvindo.

"Tenho seguido, onde parece prudente", disse Brimaz. "Mas acontece que Lanathos veio a nós. Nem todos confiam em seus motivos," — um olhar, ali, para alguns ao redor do fogo — "mas ele é inofensivo. Ele nos conta histórias e ouve as nossas. Não sei por que ele nos considera uma companhia valiosa, mas um humano que ouve nossas queixas é revigorante o suficiente para deixá-lo permanecer. Ele falou com mercadores humanos recentemente, então talvez tenha ouvido notícias de sua amiga."

"Há muito que quero perguntar", disse Ajani. "Sobre seu povo, velhos amigos, o céu..."

"...mas você está preocupado com sua amiga", disse Brimaz. "Vá. Fale com Lanathos. Colocar a conversa em dia pode esperar."


Lanathos, o Cronista, era um homem mais velho cujo pescoço e a parte inferior do rosto estavam cobertos por cicatrizes onduladas de queimadura. Seu cabelo branco era cortado rente e ele estava diante de uma fogueira crepitante, contando seu conto com a paixão e intensidade de um mestre contador de histórias.

"...e assim Polukranos retornou!", gritou Lanathos. "Derrubado de seu lugar em Nyx pela fúria descuidada de Purforos."

Lanathos olhou significativamente para o céu estrelado e revirou os olhos exageradamente. Tal irreverência o levaria ao tribunal em qualquer uma das pólis humanas. Mas aqui, os leoninos riram. Ou o homem estava jogando para o seu público, ou ele era tão iconoclasta quanto eles. Ajani perguntou-se quão diferente essa história fora quando Lanathos a ouvira.

"Todos vocês sabem o que aconteceu em seguida — como Nyleia e Heliod prenderam Polukranos sob a terra, para lá dormir para sempre e deixar o mundo mortal em paz."

Polukranos era algum tipo de hidra celestial maciça que tivera que ser presa nas estrelas para manter os mortais seguros. Ajani ouvira a história de sua queda e aprisionamento na última vez que estivera aqui.

Polukranos, Devorador de Mundos | Arte de Johann Bodin

"Mas, meus amigos, os deuses têm uma definição de 'para sempre' diferente da nossa", disse Lanathos. "Pois Polukranos despertou para ameaçar toda Theros mais uma vez!"

Houve murmúrios agora de alarme genuíno, como se Polukranos pudesse surgir no horizonte a qualquer momento. Ajani sorriu. Os leoninos eram uma boa plateia, quando se dignavam a ser.

"Em eras passadas ele devorou uma cidade inteira, e nada menos que uma cidade saciaria a fome de suas cinquenta cabeças", disse Lanathos. "Meletis, agora, seria o alvo de seu poder selvagem!"

Mais pessoas na multidão murmuraram. Um deles vibrou, mas foi prontamente silenciado. Fora Meletis que escravizara os leoninos, há muito tempo. Eles a consideravam sua verdadeira terra natal e muitos esperavam um dia recuperá-la. O pensamento da cidade em perigo, mesmo em uma história, parecia atingir ambos os lados.

"A terra tremeu com seus passos e lagos formaram-se em suas pegadas. Ele devorou tudo em seu caminho, avançando em fúria da Floresta Nessiana ao Planalto dos Quatro Ventos, onde o tirano Agnomacos foi vencido. Nada se colocava entre Polukranos e Meletis. Nada... exceto a Campeã do Sol!"

A multidão vibrou. Ajani não se surpreendeu em ouvir que aquela era uma história da Teríada, sobre a semimítica Campeã do Sol. Apesar de ser abençoada pelo principal dos deuses humanos, a Campeã era uma figura popular entre os leoninos e Ajani ouvira muitas histórias da Teríada em sua visita anterior. Talvez fosse porque as histórias da Campeã, ao contrário das histórias de deuses populares em terras humanas, focavam nos atos de mortais em vez das querelas dos deuses. A Campeã tinha a bênção de Heliod, mas suas provações eram suas.

"Lá estava ela!", disse Lanathos. "Armadura brilhante, lança erguida ao alto, manto branco agitando-se nos quatro ventos. Ela avançou e bradou um desafio, e as cinquenta cabeças da hidra viraram-se para encará-la.

"Ora, a Campeã era uma estranha nestas terras. Meletis não era a sua cidade. Mas ninguém mais estava lá para defendê-la e a Campeã não a deixaria cair.

"Ela era um ponto diante do grande corpo de Polukranos, que nem mesmo os deuses podiam matar. Mas ela tinha uma arma, uma arma que Polukranos nunca enfrentara: uma lança, forjada por Purforos, abençoada por Heliod, brilhando com a luz do sol e a vontade da Campeã. Ela baixou sua lança e atacou.

"Polukranos viu esta mortal solitária que ousava encará-lo e a fúria despertou nele. Ele abriu bem uma bocarra faminta e engoliu a Campeã inteira!"

Os leoninos arquejaram. Ajani franziu a testa. Seria esse o fim da Teríada? Eles nunca a haviam ouvido antes?

"Ah", disse Lanathos, "mas a Campeã do Sol era sábia além de poderosa e provou ser um bocado difícil para Polukranos devorar. Exatamente ao ser engolida, ela golpeou com sua lança e cortou a cabeça da hidra quase fora do pescoço. Ela saltou para a segurança e a cabeça ficou mutilada, mas não totalmente decepada. Não podia crescer de novo!

Arte de Tomasz Jedruszek

"Por dias, batalharam. Cada vez que Polukranos, em sua raiva irracional, tentava engolir a Campeã, ela abria caminho para fora e deixava outra cabeça inútil. Os deuses assistiam, impotentemente presos pelo Silêncio de Crufix, enquanto uma mortal matava seu bicho de estimação premiado cabeça por cabeça."

Ajani perguntou-se se este "Silêncio" seria algo como o que estava acontecendo no céu agora. Não o surpreenderia se tais coisas tivessem acontecido antes. A memória de Theros era longa e os deuses, desregrados.

"Por fim, a Campeã enfrentou a última cabeça do poderoso Polukranos. Ele aprendera que engoli-la só levaria à dor. Tentou pisar nela, mas ela posicionou sua lança para espetar seus pés poderosos. Ele golpeou com sua cauda, mas ela esquivou-se agilmente. Quando ele vacilou, ela subiu por sua cauda, correu por suas costas, escalou sua última cabeça que se debatia e cravou sua lança em seu olho.

"Polukranos, devorador de pólis, amado dos deuses, não existia mais. Tudo o que restou no planalto silencioso foi a Campeã de Heliod, sua lança brilhando à luz do sol."

Lanathos fez uma reverência expansiva e os leoninos murmuraram apreciação. Sem dúvida o contador de histórias já entendia que os leoninos eram muito mais contidos que as plateias humanas.

Enquanto a multidão se dispersava, Ajani dirigiu-se ao cronista.

"Uma bela história", disse ele.

Lanathos curvou-se.

"Meu nome é Ajani. Os leoninos de Oreskos me contam como um amigo e fico feliz em ver que o consideram o mesmo."

Lanathos deu uma risadinha.

"Amigo para a maioria", disse ele. "Praga, propagandista e espião para outros. Como em qualquer coisa, depende de quem conta a história. Mas parece que tenho a confiança do Rei Brimaz e isso é suficiente para a maioria das pessoas."

"É suficiente para mim", disse Ajani. "Eu esperava que você pudesse me ajudar a encontrar uma amiga minha, uma humana. O nome dela é Elspeth."

"Esse é um nome incomum", disse Lanathos. "Ajani também é, quando se trata disso. De onde você disse que é?"

Sempre são os contadores de histórias que perguntam, pensou Ajani.

"De longe", disse Ajani. "Além das montanhas, e mais além."

Ele achara que era uma resposta inócua, mas percebeu imediatamente que dissera demais. Os olhos brilhantes de Lanathos arregalaram-se.

"Há pessoas além das montanhas? Leoninos e humanos? Eles têm cidades? Templos? Conhecimento dos deuses?"

Ajani ergueu uma mão e Lanathos pausou em sua ladainha ofegante.

"Mais tarde", disse Ajani, "talvez eu responda às suas perguntas".

O rosto de Lanathos avermelhou — algo como abaixar as orelhas em sinal de vergonha, Ajani aprendera, embora houvesse nuances na expressão humana que ele ainda não captava.

"Claro", disse o cronista. "Você está procurando sua amiga." Ele coçou o queixo manchado de cicatrizes. "Lamento desapontá-lo, mas sou o único humano em toda Oreskos de quem tenho conhecimento."

"Brimaz disse que você falou com mercadores humanos recentemente. Ouviu algo deles sobre uma recém-chegada às terras deles, uma mulher solitária que falava de forma estranha e carregava uma espada?"

Lanathos piscou.

"Claro que ouvi. Você acabou de ouvir a história que eles me contaram."

As orelhas de Ajani giraram para trás por vontade própria. Estaria o velho humano fazendo uma piada?

"Estou procurando minha amiga", disse ele. "Não a Campeã do Sol."

"O que o faz pensar que sua amiga não é a Campeã?"

Ajani deixou as orelhas ficarem totalmente murchas.

"Ouvi histórias da Teríada na última vez que estive aqui", disse ele. "Sobre a Campeã treinando com os centauros e vivendo entre os leoninos. Minha amiga está aqui agora e nunca fez nada disso."

"Ajani, você está falando da Teríada como se fosse sobre uma única pessoa."

Ajani respirou fundo e soltou o ar.

"Sim", disse ele. "Estou. Lembre-se, sou de uma terra distante. Se eu entendi mal, por favor, explique."

"A Teríada é sobre a Campeã do Sol", disse Lanathos. "Mas isso não é uma pessoa. É um título, concedido por Heliod a um mortal digno em tempos de grande necessidade. A história da Teríada é a história de todos eles, do primeiro, quem quer que tenha sido, ao mais recente — a mulher que abateu Polukranos."

Arte de Tyler Jacobson

Algo não se encaixava.

"A mais recente", murmurou Ajani. "Você contou essa história como se..."

Seus olhos arregalaram-se.

"Quanto tempo atrás?"

"Recentemente", disse Lanathos. "Muito recentemente. Durante o Silêncio dos deuses. Um mês atrás, talvez um pouco mais."

Quão rápido Theros transformava eventos em história e história em mito!

"Em sua história, a Campeã lutou com uma lança", disse Ajani. "Nunca soube de Elspeth carregar uma."

Lanathos deu de ombros.

"Detalhes são como roupas; as pessoas os mudam para mantê-los frescos. Quando ouvi o conto, era uma lança. Quando os mercadores que me contaram o ouviram pela primeira vez, talvez fosse uma espada. Essas coisas mudam na narrativa."

"E quanto ao cenário?", perguntou Ajani. "O Planalto dos Quatro Ventos. Você acha que ela esteve realmente lá?"

"Talvez não no planalto em si", disse Lanathos. "Aposto que ela esteve realmente perto de Meletis, no entanto. Polukranos ameaçando a Cidade dos Doze é a alma da história. Mas não pense que ela ainda esteja lá."

"O que o faz dizer isso?"

"Outra história que ouvi", disse Lanathos. "Depois que abateu Polukranos, a Campeã foi avistada em Akros, que foi sitiada por uma horda de minotauros. Brimaz está ciente disso, como uma situação militar, mas eu não ia contar essa história ainda. Ainda não sei como termina."

"Obrigado", disse Ajani. "Você ajudou muito."

"O que você vai fazer?", perguntou Lanathos.

"Encontrá-la", disse Ajani. "Ajudá-la, se ela precisar."

Ele sorriu.

"Afinal, a Campeã sempre tem companheiros."

Resistência Desesperada

, author: "Matt Knicl", doc )

Quando fui pega roubando no escritório do magíster, deram-me duas escolhas. Eu poderia me juntar aos nobres soldados akroanos, ou poderia ser executada. O magíster devia ser um homem perverso, pensei, pois ele estava me sentenciando à morte — eu apenas pude escolher o cronograma.

É verdade, eu não teria necessariamente morrido em combate, mas então o Nascido na Nyx cravou as garras no meu torso, suas seis garras afiadas cravadas no meu corpo. Minha lança fora derrubada da minha mão e a criatura estranha que era centauro, kraken e aranha ao mesmo tempo me arremessou por cima dos meus companheiros soldados contra os portões selados atrás de nós. Eu jazia no chão, meu elmo virado bloqueando parte da minha visão, incapaz de respirar. Eu poderia não estar destinada a morrer em combate, mas os Destinos estariam cortando meu fio da mesma forma.


Mesmo como uma jovem ladra fora das academias, você aprendia sobre os grandes heróis. Como não aprenderia? Suas lendas estavam sempre nos lábios de viajantes e soldados ansiosos para se banharem na glória de grandes feitos, como se contar uma história os tornasse parte dela. Toda a minha vida, ouvi falar de heróis como o bravo Vinack, que derrubou um ciclope refletindo o sol de seus braceletes no olho maciço da fera, distraindo-a enquanto enfiava uma lança em sua barriga. Lembro-me das façanhas de Aesrias, o herói de Iroas, que nocauteou as cabeças de uma hidra selvagem para que não se multiplicassem. Mesmo hoje, há sussurros de grandes campeões. Alguns falam de Solon, o homem que enfrentou um labirinto para recuperar Dequela, o bidente de Tassa, enquanto outros honram o Rei Kedarick VI de Iretis, que arrancou os próprios olhos para não ver sua esposa e filho assassinados por leoninos traiçoeiros.

Não era difícil ver como essas histórias moldavam o povo, independentemente de sua veracidade. Mas davam às pessoas algo em que acreditar. Davam a mim, uma pobre ladra órfã, algo pelo que lutar. Como ladra, eu fingia que era a rainha dos ladrões, que minha provação de libertar as moedas do mercador malvado ou enfrentar a perigosa masmorra do depósito da estalagem seriam um dia as histórias das minhas origens. Os outros órfãos dos becos riam de mim, mas eu não me importava. Sabia que um dia seria um mito vivo, um testamento para as eras.

Dádiva da Imortalidade | Arte de Matt Stewart

Todos conhecem as histórias de Kytheon Iora e seus irregulares, mas ninguém lembra seus nomes além do de seu líder. Esses eram os pensamentos que passavam pela minha mente enquanto eu me encolhia em busca de calor sob tecidos descartados enquanto chovia. Não eram apenas os nobres que me ignoravam quando passavam, com o nariz empinado, mas até mesmo os trabalhadores, ou aqueles que tinham pouco a oferecer, não ousavam olhar para mim. Resolvi, no meu tempo nas ruas, que não seria ignorada. Eu seria uma lenda e não daria aos outros a escolha de me ignorar. Eu seria maior que Kytheon.


Quando me tornei soldada, soube que minha verdadeira história começara. Tive a chance de melhorar minha posição e subir na hierarquia rumo à grandeza. Mas logo aprendi que não sabia tanto quanto gostava de acreditar. Eu ainda não era uma adulta, embora, tendo vivido por conta própria, me considerasse uma. Mas meus instrutores rapidamente me curaram dessa ilusão. Embora eu tivesse usado apenas uma adaga rústica para me proteger uma ou duas vezes do povo mais violento dos becos, nunca usara uma espada. Fiquei tão surpresa quanto eles quando me provei uma excelente lutadora, superando facilmente os outros da minha classe e, uma vez, o instrutor. Consegui um golpe de sorte, mas os risinhos da classe mostraram que eles não viam dessa forma. Conforme eu melhorava, via os outros ficarem para trás. Em alguns meses, eu me tornaria oficial com um contingente próprio.

Vi-me caminhando pelas ruas e passando por aqueles que estavam na minha posição passada, morrendo de fome nas sombras de um beco, mas quase instantaneamente descobri que não me importava.


Os Nascidos na Nyx estavam atacando. Pelo menos, essa era a notícia vinda da muralha. Eu estava destacada na cidade e, envergonho-me de admitir, ainda não vira um conflito real. Embora eu pudesse facilmente passar por herói para os habitantes locais, era menos convincente para meus soldados e incapaz de esconder isso dos meus superiores. Eu havia acabado com vários Ressurgidos e minha companhia superara em número três minotauros alguns meses antes, mas essa era a única lenda que eu podia reivindicar. Então, quando corremos para o portão, eu estava animada, pronta para entrar na briga.

Eles se aproximavam pelo norte, o que os colocaria sobre a ponte. Nós os encontraríamos na ponte e criaríamos um ponto de estrangulamento, ordenando aos guardas que fechassem as portas atrás de nós, ecoando as táticas usadas por Kytheon Iora e seus irregulares quando lutaram contra o ciclope em Akros. Mas mesmo os relatos mais elaborados não pintavam o ciclope tão aterrorizante quanto os Nascidos na Nyx à nossa frente.

Não eram apenas um monstro. Eram todo tipo de criaturas. Alguns pareciam humanos. Outros como sátiros. Eu conseguia distinguir cabeças de hidras e garras de quimeras. Eram unificados apenas pelo fato de que todos tinham pele que brilhava como o céu noturno, o traço que passamos a conhecer dos mensageiros dos deuses. Por que os deuses nos atacavam agora? Por que nos enviaram seus emissários apenas para voltá-los contra nós? Isso não era um ato impassível de negligência, nem uma força da natureza. Eram agentes dos deuses enviados para cumprir suas ordens.

Foi então que percebi o erro em meu julgamento. Em minha tolice, eu queria que alguém lembrasse erroneamente a glória das minhas ações, repetisse meus feitos e tentasse passá-los como seus. Eu me lançara em uma luta contra um exército de tamanho e força desconhecidos com apenas outros sete soldados.

Mantivemos a linha em formação de falange. Fizemos uma parede de escudos, alguns ajoelhados enquanto eu e os soldados restantes ficávamos de pé, todos atacando os Nascidos na Nyx. A tática funcionou lindamente. Mantivemos nossa posição. Não precisávamos matar os Nascidos na Nyx, mas simplesmente derrubá-los da borda, enviando-os para a morte.

Resistência Desesperada | Arte de Raymond Swanland

No entanto, alguns homens caíram. Reforços chegaram e os guardas selaram os portões atrás deles, mas meu alívio ao ver novos soldados desapareceu rapidamente quando vi os mesmos lutadores inexperientes que eu superara no treinamento. Esses eram os mais fracos da minha classe. Meus superiores ou haviam ficado sem soldados lutando em outras frentes ou pretendiam que todos morrêssemos ali. Conforme eu continuava lutando, derrubando um minotauro Nascido na Nyx pela lateral, soube que tinha que sobreviver. Não queria me perder em uma história, uma entidade sem nome para ser um personagem de fundo na epopeia de outra pessoa. Não podia cair ali, embora se caísse precisasse morrer por último, espetacularmente, para ser eu a lembrada. Meu nome precisava ser pronunciado por aqueles que tentassem passar o peso da minha lenda como sendo deles.

Continuamos lutando até que não restassem mais reforços. Foi então que eu — uma oficial que se tirara da sarjeta — fui agarrada pela garra de um Nascido na Nyx, sendo esfaqueada seis vezes no processo, e arremessada como o brinquedo de uma criança contra os portões que não abriram.


Você nunca tem uma percepção verdadeira do herói através dos poetas. Na Teríada, os bravos soldados apreciam a batalha sem pensar duas vezes na morte ou no morrer. Mas no combate real, fora da reverência perversa que se tem por ele, há um momento de realidade que se instala quando um soldado é confrontado com a morte. Um poeta nunca vê isso. Eles escrevem sentados em almofadas, bebendo vinho. Um soldado vê esse momento e morre ou sobrevive — e então deve esquecer rapidamente, para que esse verdadeiro momento da morte não o quebre.

Vi esse momento, incapaz de respirar fundo devido à dor. Percebi que a busca por fama e fortuna era inútil. Soube disso porque nem sequer vi Érebo, senhoriando a batalha, tendo me escolhido como sua nêmese mortal. Atreos, o guia dos mortos, não estava em lugar algum, minha partida nem sequer valia sua presença.

E então, quando o último soldado caiu, os Nascidos na Nyx recuaram. Que piada cruel era aquela? As carcaças dilaceradas dos meus soldados na ponte e no abismo abaixo, e para qual propósito? Momentos se passaram, possivelmente horas, mas provavelmente segundos, e os portões reabriram, a porta giratória empurrando meu corpo descuidadamente para o lado. Dois clérigos saíram correndo, um homem e uma mulher, com dois guardas muito trêmulos. Começaram a fazer a triagem dos feridos. Eu era incapaz de falar, prostrada no chão, perdendo a consciência conforme tudo desaparecia no negrume.

Fui virada, meu elmo removido. O homem começou a remover minha armadura e a mulher sacou uma pequena adaga. Antes que eu protestasse, não que eu pudesse, ela me esfaqueou no peito e guiou um junco oco para dentro do ferimento. Subitamente, pude respirar novamente. O homem usou magia, suas mãos brilhando em branco sobre meus outros ferimentos, e pude senti-los cicatrizando. A mulher me instruiu a respirar conforme cobria e descobria a extremidade do junco conforme eu o fazia. Eventualmente, mais clérigos chegaram e me colocaram em uma carroça, com a mulher na parte de trás ainda falando comigo enquanto me levavam às pressas para um templo de Pharika.

Templo da Enfermidade | Arte de James Paick

Ela falava sobre como o que eu fizera fora heroico, mas não sabia que eu levara meus soldados para um massacre e que, mesmo que eu tivesse lutado de forma mais inteligente, aquela batalha fora inútil no fim.

Talvez fosse melhor não ser um herói, estar no plano de fundo, não tentando me transformar em algo que eu não era.

Talvez os heróis de verdade apenas deixem seus nomes desaparecerem.

Sonhos da Cidade

, author: "Ken Troop", doc )

=== Em Algum Lugar em Meletis

Euneas sonha.

Euneas caminhava entre as colunas azuis da praça de mármore branco no coração da cidade. Leões dourados patrulhavam a borda externa da praça, seus pés de metal tocando uma melodia tilintante contra o chão de mármore imaculado. Água espumante jorrava de fontes de cristal, os fluxos correntes servindo como um pano de fundo de murmúrio constante para conversas importantes. Grupos de estudiosos e filósofos debatiam na praça aberta, suas mãos tecendo símbolos arcanos de energia azul no ar. As equações eram belas, cada uma descrevendo respostas para perguntas de que Euneas não conseguia se lembrar bem, mas que eram de importância monumental. As mentes mais finas de Meletis estavam reunidas, uma convocação de intelecto e poder inigualáveis.

Súplica por Orientação | Arte de Terese Nielsen

Trabalhadores chegaram em uniformes brancos impecáveis, erguendo andaimes e arreios em silêncio. Eles escalaram até o topo das colunas, e Euneas viu colunas azuis maiores e mais novas sendo baixadas do céu distante, lenta e cuidadosamente, pelos trabalhadores lá no alto. Houve uma breve pausa, e clang, as colunas vindas do céu chocaram-se contra as colunas da praça. Os leões pararam sua patrulha, seus pés dourados imóveis; as fontes pararam seu fluxo e os estudiosos cessaram sua conversa. Cada uma das colunas originais afundara trinta centímetros no chão, e uma teia de rachaduras apareceu no chão de mármore. Houve outro clang e as colunas afundaram mais trinta centímetros, e os leões retomaram sua patrulha, a água seu arco, os estudiosos seus debates.

Houve mais clangs conforme as primeiras colunas azuis eram esmagadas pelas novas chegadas de seus substitutos idênticos. O único resquício das originais eram tocos pretos comprimidos, cercados por fissuras escuras no mármore. Novas colunas eram baixadas do céu sobre as substitutas, chocando-se contra a segunda onda de colunas com frequência crescente até que houvesse toco sobre toco, e Euneas podia ver uma quarta onda de colunas sendo direcionada com urgência pelos trabalhadores acima.

As rachaduras e fissuras espalhavam-se, gavinhas pretas de sujeira e imundície conectando-se através do mármore outrora prístino. Os estudiosos e filósofos agitavam as mãos no ar, gritando uns com os outros, mas agora suas equações eram feitas de poeira suja descrevendo trivialidades banais e, assim que apareciam, caíam sem vida no chão, somando-se à sujeira abaixo. A água espumante nas fontes falhou e parou, substituída por um lodo oleoso jorrando no ritmo de um coração doente. Um leão dourado pisou com seu pé reluzente no lodo, e o leão escorregou e caiu no chão, seu pé decepando-se com o impacto. O leão de metal cambaleou de pé, mancando sobre três pés, seu membro quebrado hemorragiando um jorro interminável de sangue.

O sangue misturou-se com a sujeira e a imundície e o óleo, enquanto ainda mais colunas eram baixadas do alto, e cada coluna entregue até este ponto era compactada no espaço de uma pequena sepultura sem nome. Centenas de anos, milhares, foram comprimidos naquelas colunas batidas, junto com as vidas e o sangue e a sujeira que esses anos criaram e revolveram. Lugar algum restou imaculado, tudo estava maculado pelo avanço da cidade, a pressão contínua para construir de novo sobre a corrupção e a morte.

Pensamentos Atormentados | Arte de Allen Williams

Euneas olhou para cima e viu os trabalhadores descendo em disparada, seus uniformes brancos agora uma massa escura e oleosa de farrapos, seus rostos dessecados e sem pele, suas bocas escancaradas capturadas em um grito eterno sem som. Quando Euneas olhou para baixo novamente, viu a escuridão oleosa cercando-o, ameaçando puxá-lo para baixo. Ele tentou fugir, e um toque de mácula oleosa acariciou seu tornozelo. As gavinhas de escuridão subiram pelas suas pernas, sua pele rachando e borbulhando com o seu toque. Euneas gritou uma canção sem palavras e arranhou e rasgou para se manter limpo. A pele descamava conforme ele esfregava e esfregava para remover a mácula oleosa, mas mesmo quando arrancou toda a pele de seu corpo, a mácula permaneceu, calcificando-se, prendendo-o no lugar. Seus olhos foram as últimas coisas que restaram livres, buscando por escape, e quando olharam para cima viram novas colunas descendo.

A cidade o reivindicara por inteiro, mais um pedaço de sedimento para as ruas que futuros habitantes pisariam em suas breves horas condenadas.

Euneas acordou gritando.

=== Em Algum Lugar em Akros

Pólio sonha.

As ruas fervilhavam de gente. Pólio nunca vira as ruas empoeiradas de Akros tão cheias. Soldados, padeiros, velhas, gladiadores, fazendeiros, meninos, escravos, os filhos de Pólio, sacerdotes, seus filhos, seus filhos, onde estavam seus filhos? Ali, à sua frente, a pressão da multidão mantendo-os encurralados.

Pólio pegou dois longos fios de barbante, barbante azul, e amarrou uma extremidade em seu pulso, e a outra extremidade de cada barbante nos pulsos de seus filhos. Pólio respirou fundo, satisfeito. Seus filhos estariam seguros, o barbante azul mantendo-os perto e protegidos. Pegou mais um pouco de barbante, verde desta vez, e amarrou-o da mesma forma que amarrara o azul. Agora seus filhos seriam alimentados. Barbante vermelho envolveu o pulso de sua esposa e o seu, o sinal de seu matrimônio.

Festival do Mercado | Arte de Ryan Barger

À medida que encontrava seus clientes na rua, e havia muitos que valorizavam o trabalho em metal de Pólio, eles eram conectados por barbante amarelo. O pulso esquerdo de Pólio estava adornado com dezenas de braceletes de diferentes matizes, cada fio um relacionamento, uma conexão com as muitas faces da cidade. E em seu pulso direito havia mais braceletes, conectando-o a vários soldados que protegiam Akros; Tomakri, o padeiro, que fazia os pães de canela doces que sua esposa tanto amava; Kopaknios, o entregador de lingotes, que fornecia os metais preciosos que Pólio transformava em lâminas e armaduras; e outros, tantos outros.

Pólio fora capaz de se mover com facilidade com as primeiras conexões, mas agora cada nova conexão era difícil. O barbante podia esticar, esticar muito, mas não podia esticar para sempre. Cada um seguia seu próprio caminho na cidade; as centenas de pessoas a quem Pólio estava conectado tinham centenas de conexões próprias e, conforme as pessoas cruzavam caminhos na cidade, novas conexões formavam-se o tempo todo. O movimento de Pólio desacelerou e depois tornou-se penoso enquanto ele lutava contra os fios brilhantemente coloridos em todas as direções. Ele buscou romper o barbante, mas não conseguiu, não importa o quanto seus músculos formidáveis gemessem e se esforçassem. Quanto mais ele lutava, mais forte e maior o barbante se tornava, até ser uma corda grossa e torcida.

Logo, todo movimento parou na rua, cada pessoa lutando contra os vínculos constritores. Pólio não conseguia mais ver seus filhos ou esposa, enquanto a corda roçava sua cabeça e pescoço e ele não conseguia virar um milímetro. Tudo o que podia fazer para permanecer de pé era lutar contra o peso de todas as pessoas ao seu redor. As cordas tornavam-se mais e mais apertadas, e todos eram trazidos mais e mais para perto. Carne pressionava-se contra carne, e ainda assim as cordas ficavam mais fortes e apertadas.

A bochecha de alguém pressionou-se contra a de Pólio e o cheiro fétido da humanidade desesperada encheu as narinas de Pólio. Ele não conseguia se mover, aprisionado como estava por corpos e pelas cordas, aquelas conexões que a cidade exigia em um mundo sem liberdade e espaço. Sentiu um arranhar onde a bochecha do homem ao lado se unia à sua, e percebeu que suas bochechas estavam se unindo, sua carne se fundindo conforme as cordas puxavam cada vez mais apertadas. Pólio tentou gritar, mas sua boca estava coberta por cordas e carne de outras pessoas, e o único som que emergiu foi a ausência de esperança.

Lançado nas Trevas | Arte de Clint Cearley

Então, Pólio era parte de uma massa amorfa de carne fedorenta e corda ardente, uma massa submetida ao sumidouro apodrecido que chamavam de lar. Este era o destino daqueles que habitavam na cidade.

Pólio acordou gritando.

=== Em Algum Lugar em Meletis

Melanta sonha.

Ela sentava-se à cabeceira da mesa de jantar do templo. Este não é o meu lugar. A toalha era impecavelmente branca, e a luz das tochas cintilando e dançando ao longo das paredes de ladrilhos brancos e azuis iluminava dois lugares na longa mesa — o dela e um próximo ao seu, à sua esquerda.

Passos ecoaram pelo corredor, mas na penumbra além ela não conseguiu distinguir imediatamente sua origem. Os passos aproximaram-se e havia um rosto à sua frente, um rosto que ela não via há vinte anos. "Melanta! Posso me juntar a você?"

Xenócrates fora um de seus primeiros mentores no templo de Éfara quando Melanta chegara tantos anos antes. Para o mundo exterior, o sacerdócio de Éfara era gentil e acolhedor. Por dentro, a verdade revelada era mais sombria. Melanta lutara para encontrar seu lugar, para equilibrar as demandas de servir ao seu deus com encontrar aceitação entre seus pares. Xenócrates a protegera, a defendera, oferecera um ombro para chorar. Houvera muito choro naqueles primeiros anos. Ela olhou para seu rosto redondo e barbeado, este rosto que não vira por tanto tempo, e não a surpreendeu que estivesse chorando novamente. Se ela olhasse por cima do ombro, se seu coração batesse um pouco mais rápido, o que importa? Estava com seu amigo novamente.

Brilho de Éfara | Arte de James Ryman

"Melanta, não fique triste. Vamos comer e beber. Estou com bastante fome." Comida e bebida apareceram à frente deles, e Xenócrates atacou a refeição com vigor. Não beba! Melanta não estava com fome, então estudou seu amigo. Embora seu rosto parecesse saudável, o restante de Xenócrates estava esquálido e longe do homem alegre e de barriga redonda que ela conhecera tantos anos antes. Xenócrates pegou o cálice à sua frente e Melanta quis gritar, avisá-lo, mas ficou em silêncio enquanto ele levava o cálice aos lábios e bebia profundamente.

"Eu lhe contei, Melanta, sobre minha nova teoria sobre os deuses?" Xenócrates olhou para ela e sorriu, e havia uma mancha azulada desagradável em seus lábios e dentes. Do vinho, pensou Melanta. Provavelmente.

"Acho que não deveríamos falar sobre isso, Xenócrates. Não é... correto. Fale-me sobre você. Como você está? Como tem passado?"

Xenócrates deu outro gole profundo em seu vinho e Melanta estremeceu. Xenócrates tossiu antes de responder. "É bom comer. Comer de verdade. Sentir a comida na boca desmanchar e mudar e apodrecer, segurar tudo isso, o sabor e o caos, a morte da vida para lhe dar vida. Sim, é bom comer. Mas eu estava falando sobre os deuses, Melanta. O que eles são, o que realmente são."

"Não nos é permitido discutir isso. É proibido."

Houve mais tosse, mais longa e sustentada, antes de Xenócrates falar novamente. "Proibido? Ouvi dizer que você está no conselho superior agora. Estou orgulhoso de você, Melanta, de ver quão longe chegou. Você pode determinar o que é proibido, não? O que é aceitável? Passamos muitas horas debatendo a natureza dos deuses. O que é mais uma hora entre amigos?" Outra tosse feroz, e Xenócrates ergueu as mãos para limpar a boca. Havia um pequeno borrão de sangue em seus lábios e bochecha.

"Você está ferido. Deixe-me..."

"Não, estou bem, Melanta. Estou bem. Uma tossinha não vai machucar. Ora, não sou eterno. Ambos sabemos a verdade disso. Apenas os deuses são eternos, dizemos. Apenas os deuses são constantes. No entanto, é estranho, certamente, ler os primeiros escritos existentes sobre Heliod e Tassa e o restante, ver quão diferentemente aquelas versões de nossos deuses agiam em comparação com agora.

"Koblios, em Meditações, disse: 'Os deuses são simplesmente padrões personificados', antes de ser apedrejado por sua heresia. Triste que, apesar do preço que pagou, ele ainda estava errado. Deuses são os padrões que reconhecemos, personificados. A diferença está no criador. Através do poder de Nyx, somos responsáveis por nossos deuses. Talvez sejamos até responsáveis por Nyx..."

"Você vai se calar!" Melanta levantou-se, furiosa. Não permitiria essa blasfêmia em seu templo. Mesmo depois de todos esses anos, Xenócrates insistia em acreditar nessas terríveis inverdades. Xenócrates tossiu e tossiu e um grande coágulo de substância sangrenta caiu na toalha de mesa branca, manchando-a de vermelho e rosa. Quando Xenócrates olhou para cima, sorriu um sorriso medonho, seus dentes manchados de um índigo escuro e sangue vazando de sua boca.

"O que você vai fazer, Melanta? Matar-me?"

A raiva fugiu de Melanta e, com ela, sua capacidade de ficar de pé. Ela desabou no banco. "Eu não... eu não matei você, Xenócrates." Eu vi eles colocarem no cálice. Eu poderia ter avisado você. Eu poderia ter lhe contado.

Reivindicação de Érebo | Arte de Zack Stella

Sangue começou a vazar de seus olhos. "Talvez não tenha matado, Melanta."

Você disse coisas tão horríveis. Coisas tão inverídicas. O que mais eles poderiam fazer? O que mais eu poderia fazer?

"Você sabia, Melanta, que existem tantos estados de decomposição antes de você morrer? Tantas formas de degradar e ser degradado, tantos ferimentos e debilitações para experienciar antes da dissolução final. Eventualmente, você fica tão comprometido que não consegue lembrar o que era a inocência. Tantas formas de apodrecer. E você conheceu apenas algumas. Tem muito mais para experienciar antes de morrer." Xenócrates abriu bem a boca enquanto o sangue fluía livremente entre seus dentes, jorrando e despejando...

Melanta acordou gritando.

=== Em Algum Lugar em Nyx

A cidade sonha.

A cidade desfrutava de seu descanso pacífico. Suas longas avenidas brancas eram limpas e reluzentes, feitas de pedra forte que absorvia a luz quente do sol. Tinha muitos edifícios maravilhosos cheios de belas colunas e trabalhos em pedra intrincados e artesanais. Por muito tempo, a cidade não conheceu nada além de descansar ao sol, e era feliz.

Eventualmente, uma criatura pequena e peluda entrou na cidade. Caminhava sobre duas pernas, e era muito minúscula, e a cidade achou o animal divertido. O animal parecia gostar de brincar na cidade, e a cidade ficou contente por ter o animal explorando. Logo, o animal foi acompanhado por um segundo pequeno e peludo animal, e enquanto deambulavam por toda a cidade, a cidade criou pequenos parques e lagos para os animais brincarem, e fez pequenos edifícios para os animais dormirem, e forneceu árvores para os animais colherem frutos, e a cidade era feliz.

Templo da Iluminação | Arte de Svetlin Velinov

No dia seguinte, a cidade acordou e encontrou muitas das pequenas criaturas peludas em suas ruas e edifícios. Havia centenas delas, e a cidade queria garantir que fossem alimentadas e abrigadas e providas, e nunca a cidade se sentira tão necessária e desejada e ocupada. As ruas da cidade não eram mais reluzentes e limpas, mas quando a cidade foi dormir naquela noite pensou em todas as criaturas que provera e era feliz.

No dia seguinte, a cidade acordou com um arranhar desconfortável. As criaturas estavam em toda parte. Havia milhares delas, muitos milhares delas, e caminhavam e rastejavam e subiam para dentro e para fora e através e por cima de toda a cidade. Em todos os lugares, as criaturas deixavam pelos e manchas, e as ruas outrora belas da cidade estavam entupidas de sujeira e imundície e lama.

As pragas continuavam a se espalhar, e suas boquinhas de macaco mordiscavam as árvores da cidade e lambiam a água da cidade, e sua fome voraz as levava até a morder os edifícios de pedra e as ruas da cidade. Cada avenida e estrutura da cidade estava coberta pelas pragas peludas, mordendo o corpo da cidade, e a cidade começou a tremer e sacudir para livrar-se da horda pestilenta.

VOCÊ DEVE SURGIR.

A cidade não reconheceu a voz, nem conseguiu ver de onde vinha.

VOCÊ DEVE DESPERTAR.

A cidade percebeu que nunca ouvira outra voz antes, mas a verdade das palavras tornou-se aparente. A cidade deve surgir. A cidade deve despertar. Havia outro mundo para agarrar.

Cacofonia, o deus das cidades, surgiu. Olhou ao redor para os pequenos macacos agarrados ao seu corpo. Viu sua fome e seu medo, e era feliz. Cacofonia estendeu a mão com suas mãos recém-formadas e agarrou milhares das criaturas-macaco peludas, esmagando-as e arremessando seus cadáveres ao chão abaixo. Não destruiria todos os macacos, apenas alguns, o suficiente para que os sobreviventes vivessem suas vidinhas de macaco em agonia e medo, e então iria...

"Que monstruosidade é esta?" Foi a segunda voz que o deus recém-despertado ouviu naquele dia, embora, ao contrário da primeira, esta voz fosse uma que Cacofonia já ouvira antes — embora não conseguisse lembrar de onde. Uma mulher alta e de pele escura caminhou para a visão do deus da cidade, sua pele coberta com as estrelas de Nyx e, sob aquela pele, para aqueles com os sentidos para ver, pulsos de energia azul e branca brilhavam como o sol.

Os olhos da mulher, orbes cheios de estrelas, escureceram e tornaram-se vermelhos enquanto ela olhava para Cacofonia. "Você ousa existir? E quem ousa criá-lo? Onde você está, mortal? Eu o encontrarei. Você não pode esperar se esconder de alguém como eu."

Enquanto falava, a mulher estendeu as mãos, mergulhando-as em Cacofonia. "Eu sou Éfara, e você não deveria existir mais do que um dedo separado de sua mão. Adeus, Pequeno." Sua voz soou quase gentil, no fim.

Iluminação de Éfara | Arte de Wesley Burt

Cacofonia não sabia o que estava acontecendo, não conseguia entender por que sua vida estava se esvaindo, sua consciência adormecendo. Ao cair de volta na não-existência, o sonho-cidade um dia conhecido como Cacofonia nunca teve um momento com coerência suficiente para conhecer o arrependimento.

Cacofonia, o deus das cidades escuras, nunca mais acordou.

=== Em Algum Lugar em Theros

Os tremores da terra dissiparam-se até a quietude conforme o último resquício do encanto de Fenax dissolveu-se ao redor de Ashiok. Ashiok pairou no ar, silencioso e imóvel, antes de estender os sentidos pela área circundante para certificar-se de que Ashiok estava sozinho e nenhum deus vingativo estava em perseguição.

Ashiok escolhera especificamente o templo abandonado a Éfara em uma cidade deserta nos arredores da Theros civilizada. Inúmeras pequenas cidades desertas podiam ser encontradas como aquela, um testamento da futilidade da permanência em um mundo controlado pelos caprichos de deuses.

Um daqueles caprichos permitira que Ashiok permanecesse invisível e indetectado por qualquer força em Theros, exceto uma.

"Então, que benefício você deseja de mim?" o deus Fenax perguntara a Ashiok, não muito tempo antes, para pagar um favor que o Planinauta fizera para o deus. O fato de Ashiok ter gostado imensamente de realizar o favor não tinha relação com a necessidade de retribuição. Deuses não suportam estar em dívida com mortais por muito tempo.

Desejo me esconder dos deuses.

Ashiok confiara que Fenax se divertiria com o pensamento de enganar todos os outros deuses, e Fenax provara que Ashiok estava certo. O benefício era temporário, e Fenax fora muito explícito sobre o destino de Ashiok se Ashiok usasse o benefício para tentar ferir ou assassinar um deus.

Mas Fenax nunca dissera nada sobre tentar criar um novo deus.

A tentativa nunca seria bem-sucedida. Mas era bela. A beleza importava muito — não o valor mais importante de Ashiok, mas ainda assim algo a ser prezado. Além disso, o sucesso nesse campo parecia problemático de qualquer maneira. A aparente fascinação de Xenagos em ser uma deidade mistificava Ashiok — uma das poucas coisas opacas para Ashiok. Xenagos era um Planinauta. Que melhor oportunidade para criação e beleza existia?

Ashiok, Tecelão de Pesadelos | Arte de Karla Ortiz

Xenagos provara que transformar um mortal em deus era difícil, mas possível. Mas transformar uma ideia em deus era muito mais fácil. E para aqueles que tinham a capacidade de controlar sonhos, era mais simples ainda. Ashiok suspeitava que ideias tomavam forma e tornavam-se proto-deidades em Nyx o tempo todo, mas eram provavelmente absorvidas pelas deidades existentes sem que ninguém, incluindo os deuses, percebesse que estava acontecendo. Mas se esse processo fosse moldado, fosse esculpido, se a conexão dos humanos com seus deuses fosse atacada, se sua conexão com seus padrões fosse atacada, enquanto um novo caminho para esse padrão era preparado... bem, Cacofonia poderia surgir novamente.

Como o artista escaparia da detecção dos deuses enquanto permitisse ao deus criado tempo suficiente para sobreviver e crescer forte seria difícil. Mas esses eram detalhes para algum técnico no futuro executar. Quanto às consequências daquele dia... que Éfara se perguntasse quais maquinações levaram à exibição. Que outros deuses indagassem e se preocupassem e investigassem o que aquilo pressagiava.

Mortais não eram as únicas criaturas propensas a ver padrões onde nenhum existia.

Ashiok já partira para contemplar a próxima sinfonia. Havia sempre mais exibições maravilhosas para criar, aqui no mundo fértil de Theros.

Minúsculos pedaços da bochecha de Ashiok dissolveram-se em fumaça. Novos sonhos nasceram.

Agradeça aos Deuses

, author: "Clayton Kroh", doc )

"Agradeça aos deuses!", exclamou a parteira de rosto avermelhado quando o filho de Raíssa começou a emergir. O bebê lutava contra Raíssa ferozmente enquanto ela empurrava. Ele dava coices com seus minúsculos cascos, e as pontas de seus novos chifres cavavam em suas entranhas tenras. Egoísta!, pensou Raíssa, imaginando o menino agarrando o cordão e tentando subir de volta por ele para se esconder atrás de seu coração. Enquanto ela lutava, sua raiva crescia.


Aos três meses de gravidez, a parteira anunciara que haveria gêmeos, uma adivinhação que a inflara como uma galinha altiva. Mas Raíssa já sabia disso; a estrela-do-mar lhe revelara. Fora também a estrela-do-mar que lhe mostrara que um gêmeo era um menino e o outro uma menina.

Raíssa visitara a piscina de maré salobra frequentemente enquanto carregava os gêmeos. Ela trilhava cautelosamente o caminho pelos penhascos denteados, seus pequenos cascos escorregando em seixos enquanto se agarrava às pedras, avançando centímetro a centímetro em direção à costa azul-esverdeada onde consultava a criatura mágica. Pelo caminho, coletava amêijoas para colocar na piscina ao lado da criatura opalescente. Feitas as oferendas, sua superfície espinhosa e cintilante rodopiava em uma dança bela e hipnotizante até que ela sentia o gosto de sal e se sentia flutuando como um grão na piscina, a estrela-do-mar surgindo gigantesca diante dela. Olhando para a superfície aquosa acima dela, imagens formavam-se em seu lado inferior ondulante, mostrando-lhe visões de coisas que ela não poderia saber de outra forma.

Estrela-do-mar Sigilada | Arte de Nils Hamm

Aos cinco meses, Raíssa viu na visão que o menino estava superando a menina, embora aquilo fosse algo que seu próprio corpo lhe dizia, um preconhecimento materno que lhe permitia um pequeno senso de poder em sua vida que se tornara quase totalmente comandada pelas necessidades de seus filhos não nascidos.

Aos seis meses, a visão aquosa perturbou Raíssa grandemente. Flutuando em seu mundo-útero, o menino inquieto apertava a minúscula menina, forçando-a para recessos profundos. A menina encolhia na presença dominadora do menino até que ele eclipsou completamente a visão que Raíssa tinha da menina.

Chocada, Raíssa chutou em direção à superfície do sonho, rompendo-a como um peixe em pânico. Ela jazia arquejando na luz branca e dura e no ar da costa. Após vários minutos, recompôs-se e cambaleou para casa, massageando sua barriga inchada e sentindo apenas a presença de um filho dentro de si.

Duas semanas se passaram, e ela não conseguiu mais resistir a retornar para fazer oferendas à estrela-do-mar para perscrutar os segredos dentro de si. Agora, um único filho nadava em seu interior, um menino engordado crescendo no espaço roubado. Ele parecia dançar em sua barriga — sim, ela conseguia senti-lo saltitando dentro dela, cheio de alegria, enquanto ela flutuava na visão.

Raíssa não ficou perturbada com isso, entretanto; de fato, sentiu uma onda de orgulho — orgulho da tenacidade de seu filho, de sua exuberância desenfreada e de sua força. Raíssa começou a balançar ao ritmo de seus chutes triunfantes.

Aos oito meses, os sigilos prateados dançantes da estrela-do-mar mudaram de cor e teceram um sonho de amplitude incompreensível, encharcado em ondas de verde viçoso e leques espalmados de vermelho ígneo. A visão pulsava com lugares que ela nunca vira, lugares que entendia que nunca veria — lugares fantásticos e imundos que não faziam parte de Theros.

Confluência de Mana | Arte de Richard Wright

Os mundos giravam como um móbile de criança ao redor de seu filho, que permanecia desafiador no centro, agora totalmente crescido. Suas ancas, cobertas de pelo ruivo e rígido, flexionavam-se como as de um touro investindo. Chifres grossos curvavam-se da parte de trás de sua cabeça, uma poderosa coroa espiralada de osso. A visão sobrecarregou Raíssa com seu presságio assombroso. Seu filho seria um rei! Novamente, o orgulho a lavou; entretanto, desta vez, no fundo das trincheiras escuras de sua mente, uma corrente fria fluiu.


Por fim, Raíssa sentiu a criança ceder à sua crescente frustração e raiva. Essa raiva deu-lhe força, que ela usou para finalmente expulsá-lo, uivando, de seu corpo. A expressão plácida da parteira escureceu enquanto ela puxava o bebê e este a chutava. A raiva de Raíssa dissolveu-se rapidamente em amor quando a parteira, praguejando baixinho enquanto erguia a criança que se contorcia e lutava para enfaixá-la, finalmente o empurrou para os braços de Raíssa.

"Agradeça aos deuses", murmurou a parteira enquanto se virava e saía apressada da sala.

O robe de seda de Raíssa agarrava-se à sua pele, encharcado e frio pelo esforço. Ela tremeu e chamou fracamente pela parteira para que trouxesse um cobertor, mas a mulher já estava fora do alcance dos ouvidos, tendo desaparecido na adega para beber do estoque de vinho de simpósio da Ordem das Parteiras de Setessa.

Sátiro Viajante | Arte de Tyler Jacobson

Raíssa jazia no colchão de palha, exausta, e considerou sua situação. Ela buscara a assistência das mulheres de Setessa para dar à luz. A maioria das mulheres sátiros, uma vez suficientemente recuperadas, simplesmente abandonariam seus filhos aos cuidados de Setessa e retornariam às folias despreocupadas do Vale de Skola, o lar dos sátiros. Sua irmã fizera exatamente isso quando engravidara. Deveria ela fazer o mesmo? Raíssa olhou para o rosto rosado de seu menino e soube que não podia. Esta criança era especial, e ele precisaria dela para cumprir o destino que ela testemunhara.

Ela abraçou a criança apertado.


"Agradeça aos deuses!", exclamaram seus vizinhos, quando Raíssa saiu cambaleante da casa em chamas, com seu filho de seis anos nos braços. Eles correram até ela e tiraram o menino de seus braços enquanto ela desabava, tossindo convulsivamente, seu robe de seda chamuscado e fumegante. "Agradeça aos deuses", repetiram, e Raíssa cerrou os dentes. Os deuses, de fato. Raíssa queria repreender as pessoas que ofereciam aqueles agradecimentos, as mesmas pessoas que sussurravam sobre ela e seu filho quando pensavam que ela não podia ouvir. E o que os deuses haviam feito por ela, exceto amaldiçoá-la com esta criança quase selvagem que ela não conseguia controlar? Ele causara a expulsão deles de Setessa quando empurrou o filho de uma das integrantes do conselho governante do templo de Carametra para a morte de uma alta ponte de cordas entre as árvores. Mas Raíssa só conseguia arquejar e tossir um fluido enegrecido.

Eu deveria tê-lo deixado e retornado ao Vale, pensou amargamente.

Quando recuperou o fôlego, ela se levantou e arrancou o menino dos braços deles. Virou-se e mancou com ele pela estrada, ainda tossindo, deixando os murmúrios da multidão para trás.

"Você é forte", disse o menino. Raíssa olhou para ele. Ele sorriu para ela, piscando para tirar a fuligem de seus olhos verdes grandes e brilhantes. Mais uma vez, a raiva de Raíssa em relação ao filho esvaiu-se, e o amor inchou no espaço.

Ela arrancou da mão pequena dele o graveto carbonizado e encharcado de óleo que ele usara para incendiar a cama dela enquanto ela cochilava e o jogou fora.

Após uma hora de caminhada, o desespero abateu-se sobre Raíssa. Ela colocou o menino no chão e descansou, observando-o sair saltitando para brincar perto das árvores na beira da estrada. Ela não tinha para onde ir, agora. Estivera caminhando sem destino em mente, e o pôr do sol estava a apenas algumas horas de distância. Onde dormiriam? O menino, agora empunhando um graveto afiado como uma espada, saltava de um lado para o outro sobre a vala ao lado da estrada. O que comeriam?

Raíssa olhou para cima em busca de uma resposta, quase por hábito, como se fosse ver ali não a abóbada de Nyx arqueando-se acima, mas os sonhos ondulantes e tranquilizadores das visões da estrela-do-mar. Havia apenas o céu vazio e sem sentido.

Estou sendo punida porque não presto tributo aos deuses? Raíssa ajoelhou-se onde estava. "É isto o que vocês querem?", perguntou ao ar livre. Fechou os olhos contra o olhar indiferente dos céus. Uniu as mãos. "Isso os satisfaria, mostrar-lhes que vocês nos quebraram?"

Raíssa ouviu seu filho cantarolando e saltando na beira da estrada. "Devo me submeter?", disse ela, mais baixinho.

Tudo estava quieto. Então, ouviu seu filho ao seu lado gritar: "Forte!". O menino golpeou-a na lateral da cabeça com seu graveto. A dor explodiu atrás de suas pálpebras, branca e abrasadora, e ela clamou. Ele saiu correndo, rindo. Um filete quente escorreu pela lateral de seu rosto.


Raíssa não conhecia o caminho a seguir para si ou para seu filho, mas sabia onde poderia aprendê-lo. Fazia um ano que não visitava as piscinas de maré. Esperava que a estrela-do-mar ainda estivesse lá, embora tivesse passado tanto tempo que temia que ela tivesse se mudado para outras piscinas em busca de sustento, uma vez que suas oferendas de amêijoas haviam parado.

Raíssa trilhou cuidadosamente o caminho pelos penhascos, enquanto seu filho saltitava, deslizava e ria pelo caminho à frente dela. Na costa, mostrou-lhe como procurar por amêijoas. Reuniram várias, e ela o conduziu sobre pedras desgastadas pelo tempo até as piscinas de maré isoladas. Verificou a piscina que sempre visitara, mas a estrela-do-mar sumira.

Procurou pelas outras piscinas, indo cada vez mais longe da primeira. Então, em uma depressão rasa perto da borda do terreno rochoso, encontrou a estrela-do-mar. Ela brilhava em prata e laranja nos longos raios de sol da tarde. Raíssa colocou suas amêijoas na piscina ao redor da estrela-do-mar, e seu filho fez o mesmo. Seus olhos grandes arregalaram-se quando a estrela-do-mar moveu-se e sua superfície corou de verde e vermelho. Juntos, Raíssa e seu filho flutuaram para dentro do sonho.

Ela viu um céu noturno acima dela, a própria Nyx, cheia de constelações que deslizavam com uma vida própria. Elas flertavam com, acolhiam, ameaçavam e recuavam umas das outras em um drama poderoso que maravilhava Raíssa.

Então, tudo parou. As constelações, seus movimentos elegantes interrompidos, pairavam imóveis diante dela e de seu filho. Lentamente, suas cabeças viraram. Encararam Raíssa — não, encaravam seu filho! — e a indignação brilhou em seus olhos. Suas bocas abriram-se e, em uníssono, suas vozes fulminantes irromperam em um terrível coro de condenação. Ergueram suas armas. Suas mãos encheram-se de tempestades e relâmpagos arquearam de seus dedos enquanto avançavam sobre seu filho. Raíssa esticou a mão para agarrar o filho, mas ele não estava lá. Viu-o subindo em uma nuvem rodopiante de poder vermelho e verde acre em direção às fileiras avançadas da hoste empírea, em seu punho um cajado reluzente. Raíssa recuou e cobriu o rosto.

Extinguir Toda a Esperança | Arte de Chase Stone

A visão escureceu. Ela sentiu o gosto de sal e algo metálico na boca.

"Forte!"

A escuridão dissipou-se. Seu filho estava rindo, um riso áspero que parecia cheio de despeito e brasas, não a inocência brilhante de uma criança. Ele segurava ao alto seu graveto afiado em uma pose vitoriosa. Um icor cinza e reluzente escorria pelo comprimento do graveto, pelo seu braço, e pingava na piscina vindo de seu cotovelo para formar nuvens escuras na água. Na ponta do graveto retorcia-se o corpo cinza empalado da estrela-do-mar.

O Caminho ou o Horizonte

, author: "Adam Lee", doc )

Zósimo caminhava pela trilha de terra que serpenteava ao redor da borda da floresta antiga e acolheu o frescor da sombra das árvores altas. O sol brilhava intensamente contra o céu azul enquanto ele respirava o ar puro, denso com o cheiro das flores da primavera.

Então um pensamento infiltrou-se em sua consciência como uma áspide nessiana. Ele deslizou por sua mente e começou a apertar seus anéis.

Glória e honra.

E se ele nunca alcançasse nada? E se morresse sem nunca ter conquistado o favor dos deuses? Havia muitos heróis na terra, e todos eles ardiam com o desejo de agradar a Iroas, Heliod ou Nyleia. Alguns heróis haviam ganhado reconhecimento, alguns eram venerados nos templos. Seus feitos haviam sido tão incríveis e inspiradores que Zósimo sentia-se enjoado apenas de pensar nisso. Mesmo que tivesse a chance, sentia que nunca seria tão grande quanto aqueles heróis, com suas armas mágicas e favor divino. Onde encontraria tais dádivas?

Zósimo não conseguia desviar sua atenção deste dilema. Doía em seu coração como um espinho.

Um pássaro cantava tão claro e tão puro quanto uma dríade. Um lagarto dourado correu sobre uma pedra, sua pele brilhando ao sol como uma joia, mas Zósimo nada viu, e ouviu apenas sua própria mente perturbada. O mundo brilhante tornou-se opaco, seus passos mais pesados, enquanto ele continuava sua jornada, sobrecarregado por seus pensamentos.

"Você quer ser um herói?", disse uma voz.

Zósimo quase saltou para fora de suas roupas.

"Quem disse isso?" Zósimo girou e sacou sua espada. "Apareça!"

Um sátiro robusto saltou para a trilha vindo de um arbusto espesso e colocou as mãos em suas ancas peludas. Ele olhou para Zósimo, apertou os olhos e franziu os lábios em estudo. "É. Você quer ser um herói. Estou observando você há um tempo, humano. Você tem esse olhar preocupado."

Sátiro Errante | Arte de John Stanko

"Não estou preocupado", disse Zósimo. "Estou pensando... sobre coisas sérias. Provavelmente algo que você não entenderia, sendo um sátiro e tudo mais."

"Conversa fiada", disse o sátiro, então olhou para cima e coçou o queixo. "Embora eu não possa dizer que me preocupei um único dia na vida, para falar a verdade. Na verdade, essa é a primeira coisa que um herói precisa fazer."

"Preocupar-se ou não se preocupar?", perguntou Zósimo.

"Parece que você precisa de algumas lições. Sente-se. Deixe-me contar algumas coisas." O sátiro sentou-se à frente de Zósimo.

Zósimo embainhou sua espada e sentou-se em uma rocha próxima. O sátiro parecia jovem e velho ao mesmo tempo, com um brilho brincalhão nos olhos e um comportamento saltitante, mas por baixo de tudo Zósimo podia sentir algo mais que não conseguia definir.

"Seu jardim está cheio de ervas daninhas", disse o sátiro.

"Que jardim? Eu nem sequer tenho um jardim", disse Zósimo, confuso.

"Seu jardim." O sátiro cutucou a cabeça de Zósimo. "Cheio de ervas daninhas." O sátiro recostou-se no tronco de um pequeno choupo. "E você está tentando cultivar uma flor rara aí dentro. Não vai funcionar."

O sátiro tirou um cachimbo esguio, encheu-o e o acendeu. Olhou para Zósimo por baixo de suas sobrancelhas espessas. "Fumaça?"

"Não. Obrigado", disse Zósimo.

"A preocupação é uma criação de Fenax, um grande paralítico para rivalizar com o veneno mais virulento de Pharika, exceto que a preocupação afeta a mente, não os músculos." O sátiro flexionou o braço enquanto soltava uma longa trilha de fumaça. "Você quer saber uma coisa? Quando você se preocupa, está na verdade adorando a Fenax. A preocupação lhe dá grande prazer, sabia disso?"

Zósimo balançou a cabeça.

"Ah. Acho que é melhor eu lhe contar, então." O sátiro inclinou-se e sussurrou. "Quando você adora a Fenax, você desdenha de Iroas."

Templo da Decepção | Arte de Raymond Swanland

"Pelos deuses", disse Zósimo. "Nunca pensei nisso dessa forma."

"Não fique todo preso nisso. A preocupação é apenas a erva daninha, mas sua raiz, ah, bem, agora aquilo vale a pena alcançar."

"A raiz?", perguntou Zósimo.

"Já ouviu falar dos cunhadores de moedas do Mundo Inferior?", perguntou o sátiro.

"Apenas o que os livros e filósofos dizem."

"Livros e filósofos", disse o sátiro com um suspiro. "Eles vão impedir você de descobrir qualquer coisa por si mesmo, mas isso não vem ao caso. Nas profundezas do Mundo Inferior, existe uma classe de cunhadores de moedas. Mas estes não são cunhadores comuns. Eles cunham moedas para uso no Mundo Inferior. Ora, como está em toda parte no Mundo Inferior, o ouro tem pouco valor. O que o Mundo Inferior valoriza são moedas, ostraka, feitas de argila simples — mas não de qualquer argila; elas são batidas a partir das máscaras funerárias de argila daqueles que morreram."

Cunhador de Moedas do Mundo Inferior | Arte de Mark Winters

"Por que as máscaras funerárias de argila são tão valiosas?"

"São valiosas porque uma representação de quem você foi em vida é esculpida na máscara, e Érebo, embora nunca admitisse, cobiça o mundo dos vivos acima de tudo. Ele nunca poderá retornar à terra dos vivos, então, por despeito, proíbe que qualquer pessoa retorne sem pagar um preço terrível."

Zósimo lembrou-se dos muitos funerais que vira ao longo de sua vida. As máscaras funerárias passaram diante de seus olhos, algumas simples, algumas extravagantes, todas elas tentando encapsular uma vida inteira em uma única expressão.

O sátiro continuou. "Ora, você pensaria que a máscara de um grande herói, ou a máscara de um rei, seria mais valiosa que todas as outras. Digo, pessoas importantes têm máscaras tão magníficas. Mas, nas margens do Rio, ao lado dos cunhadores de moedas, as máscaras de reis e heróis misturam-se com mendigos, tolos e bandidos. Érebo pouco se importa com o que você foi em vida. Ele só se importa que você um dia existiu."

Zósimo imaginou os misteriosos cunhadores de moedas, cinzelando ostraka das máscaras, empilhando-as em grandes montes para os habitantes do Mundo Inferior.

"Érebo é o grande equalizador. Ele nos sela dentro do Mundo Inferior, do qual não há retorno, a menos que desejemos forjar uma nova identidade e nos tornarmos um dos Ressurgidos. Qualquer tolo pode ver quão terrível erro é esse."

Zósimo vira um Ressurgido uma vez, vagando, sem alma, gemendo. A memória disso ainda lhe causava um calafrio na espinha.

O sátiro percebeu a inquietação do jovem. "Antes de você fazer um julgamento, saiba que Érebo está nos dando uma dica, uma pista vital para a essência da verdade."

"Que verdade? Érebo é aterrorizante, impiedoso."

"Érebo está nos fazendo descobrir o que é verdadeiramente valioso." O sátiro colheu e girou uma flor pelo caule, fazendo a pétala rodopiar em seus dedos. "Não importa o quanto nos empertiguemos e cantemos vitória e nos adornemos com postos, status e títulos, tudo se torna uma máscara de argila sem valor no final. Não podemos levar nosso orgulho ou posses conosco para o Mundo Inferior. Tudo é inútil lá. Então, o que fazer, o que fazer?"

Peso do Mundo Inferior | Arte de Wesley Burt

O sátiro olhou para Zósimo.

"Não sei", disse Zósimo.

"Isso, meu amigo", disse o sátiro, apontando a flor para Zósimo, "é um excelente lugar para começar."

"Considere que não se trata do que é esculpido em uma máscara ou estátua", disse o sátiro. "Os vivos têm pouca utilidade para coisas mortas. Talvez se trate do que você deixa para trás. E o que um verdadeiro herói deixa para trás? Estabilidade, paz, um mundo florescente, um lugar para todos crescerem. Um herói não se preocupa com uma máscara mortuária ou um título chique ou propriedade; um herói preocupa-se com o florescimento da bondade em todas as suas formas."

"O florescimento da bondade", repetiu Zósimo.

O sátiro deu um puxão em uma vinha próxima. Uma seiva âmbar pingou de seu caule.

"Coloque isto em sua língua", disse o sátiro.

Zósimo tocou a gota dourada com a língua. Um sabor diferente de qualquer outro formigou gentilmente em sua boca, uma doçura suave expandiu-se e encheu seu nariz com bagas, terra e vinho.

"Isso é incrível", disse Zósimo.

Fonte de Fertilidade | Arte de Jack Wang

"O mundo é bom, meu rapaz." O sátiro sorriu. "É isso. Toda esta criação é um jardim e os humanos estão presos em ideias, conceitos, 'glória' — seja lá o que for isso — e estão perdendo tudo: a brisa da primavera, o canto, a dança e o sabor da nectarvine. Um herói traz essa consciência para o povo e o defende do mal para que eles possam limpar sua própria parte do jardim."

"Acho que entendo", disse Zósimo. A nectarvine ainda aquecia seu interior.

"Essa sua espada é boa, mas você pode precisar de uma faca também." O sátiro entregou a Zósimo uma faca cega e enferrujada que parecia ter sido usada para cortar pedras em uma pedreira. "Quando um herói desperta, todo tipo de coisas vêm da escuridão para apagar a luz do herói. Você nunca pode ser vigilante demais."

Zósimo pegou a lâmina por educação e a enfiou no cinto.

O sátiro levantou-se, bateu o cachimbo e limpou o traseiro. "Adeus, herói. É um dia lindo."

Ele saiu saltitando para a mata como um cervo.

Zósimo sentou-se na pedra por um tempo e sentiu a brisa soprar em sua pele. O calor do sol aquecia o solo e ele sentia o cheiro da terra e da grama. Havia monstros no mundo, e deuses terríveis, mas tudo parecia em equilíbrio de alguma forma, e Zósimo sabia que papel iria desempenhar na grande dança da criação. Sabia que a bondade ardia no âmago de seu ser. Conhecia a si mesmo.

Ele levantou-se e caminhou pela trilha que se estendia à sua frente como um fio no tear do destino. Ele ia em direção a Meletis, mas após o encontro com o sátiro, algo nele mudara. Ele se transformara. Enquanto caminhava, sentia-se cada vez mais atraído pelo horizonte oriental até não aguentar mais e sair da trilha.

A grama alta roçava em suas pernas enquanto ele seguia o sentimento que o puxava para as montanhas distantes. Zósimo não tinha ideia do que havia naquelas montanhas. Tudo o que sabia era o sentimento em seu corpo, em seus ossos, que falava com ele sem palavras. Ele seguira seus pensamentos perturbados por tempo demais, pensamentos de medo e dúvida, as sementes de Fenax. Agora ele seguia seu destino.

Ao transpor a primeira de muitas colinas ondulantes que jaziam à sua frente, sentiu um lampejo de calor em seu quadril seguido por uma luz ofuscante. Olhou para baixo e viu que a adaga do sátiro se transformara em uma espada reluzente forjada pelos deuses.

Intuição de Crufix

, author: "Kelly Digges", doc )

Diantha respirou fundo, centrou-se e bateu na porta.

Houve uma pausa.

Às vezes, a convidada deles não desejava ser perturbada de forma alguma. Outras vezes, solicitava, através da porta ainda fechada, que a comida fosse deixada no corredor. E, ocasionalmente, convidava os acólitos a entrar e os envolvia em conversa, como se gostasse deles, como se quisesse estar ali.

"Entre", disse a oráculo.

Diantha abriu a porta.

A Oráculo de Crufix era uma bela mulher de longos cabelos pretos. Estava olhando pela janela, como fazia frequentemente, com os braços apoiados no parapeito. Mais dois braços, diáfanos, meio reais, agitavam-se preguiçosamente aos seus lados. Crufix marcava bem seus oráculos, para que ninguém pudesse confundi-los, e ninguém exceto tolos e selvagens lhes causaria qualquer mal.

A oráculo virou-se para encará-la e sorriu.

Profeta de Crufix | Arte de Winona Nelson

"Olá, Diantha."

Diantha pousou a bandeja — carne de carneiro, recém-saída do fogo, e uma variedade de vegetais grelhados, azeitonas frescas e queijo. Crufix tinha poucos adoradores e seu templo em Meletis era pequeno, mas não poupavam nada para o oráculo de seu deus.

"Saudações, Oráculo", disse Diantha. "Espero que esteja bem?"

"Bem o suficiente", disse a oráculo. "Estava apenas pensando no templo."

"O templo, minha senhora?"

A oráculo sorriu.

"O templo de Crufix — seu verdadeiro templo — onde duas grandes árvores montam guarda nos confins da terra."

"A senhora..." Diantha hesitou. "A senhora fala como se o tivesse visto, Minha Senhora."

"Eu vi. Quando estive em perigo, Crufix me levou para o seu templo. Passei um tempo com ele lá durante a agitação."

Diantha curvou-se.

"É uma honra muito grande aprender com o próprio Crufix."

O sorriso da oráculo desapareceu.

"Aprendi", disse ela. "Sim. Sim, suponho que aprendi."

Diantha quase se curvou, quase se virou, quase saiu da sala.

"Eu a invejo", disse ela, em vez disso.

"Oh?", disse a oráculo.

"Sim, muito mesmo", disse Diantha. "Sou uma sacerdotisa e, como sacerdotisa, tenho fé — fé na sabedoria de Crufix, fé em sua autoridade sobre os outros deuses." Ela olhou para os próprios pés. "Mas não ouço sua voz, Minha Senhora, e nunca caminhei em sua presença. Existe..."

Diantha hesitou. Ela não deveria perguntar.

"Existe algo que a senhora possa me contar? Do que aprendeu?"

A oráculo voltou a olhar pela janela, com os olhos fixos no horizonte distante e, por um longo momento, não disse absolutamente nada.


De seu posto entre os grandes galhos do Templo de Crufix, Kydele vira tudo acontecer. Ela se apoiara na madeira viva com suas mãos vivas, e contra a noite estrelada com os dois braços enevoados e insubstanciais que Crufix lhe dera quando ela despertara como seu oráculo.

Templo do Mistério | Arte de Noah Bradley

Kydele vira quando Xenagos se tornara um deus, rugindo através da superfície prístina de Nyx como um incêndio florestal. Vira a chegada da humana Elspeth Tirel e de seu companheiro leonino, Ajani. Vira-os caminhar através do corpo de Crufix, um portal para Nyx, e pisar no céu. Vira Elspeth usar a lâmina chamada Dádiva dos Deuses para cortar Xenagos do céu.

E vira Heliod, que se intitulava o maior dos deuses, arrancar a arma das mãos de Elspeth — a lâmina que ele consagrara para ela, marcando-a como sua campeã.

Você se parece demais com o sátiro, dissera o deus do sol. Seus olhos viram coisas que não consigo compreender. E uma campeã não pode saber mais do que seu deus. Sou o senhor do panteão. Sou o maior dentre estes.

E então ele a assassinara, sua própria campeã, com sua própria arma.

A crise passara. O panteão estava seguro e Nyx estava se curando da violência de Xenagos.

Kydele sentia-se morta por dentro.

A maioria dos oráculos ouvia a voz de um deus alta e clara em suas cabeças, soando como um sino quando os pronunciamentos vinham e permanecendo silenciosa de outra forma. O pobre Daxos, oráculo de cada deus e de deus nenhum, ouvira todos eles, o tempo todo. Um coro ensurdecedor de divindade. Mas com Crufix era diferente. Crufix falava em sua mente quase constantemente, uma ladainha sussurrada de imagens e eventos pairando logo além de sua capacidade de ouvir, como o sol espreitando abaixo do horizonte.

Mas desde o ato de traição de Heliod, a voz de seu deus silenciara. Mesmo ali, em seu templo com vista para a grande cachoeira que beirava Nyx, ela nada ouvia. Captava vislumbres ocasionais de sua forma sombria movendo-se pelas salas de seu templo, mas ele nunca falava.

Era difícil dizer quanto tempo passara, ali na beira do mundo.

Kydele passeava pelos terrenos do templo, perdida em pensamentos, quando a voz familiar de seu deus ecoou ao seu redor.

Você está perturbada.

Não era, atipicamente para o deus dos mistérios, uma pergunta.

Kydele virou-se para encarar o contorno estrelado de quatro braços de Crufix no horizonte.

Intuição de Crufix | Arte de Igor Kieryluk

"Parece que não sou a única", disse Kydele.

Crufix nada disse, mas gesticulou para que Kydele caminhasse com ele. Conforme se aproximava para caminhar ao lado dela, ele encolheu, em uma bizarra inversão de perspectiva, até ficarem da mesma altura.

"Foi uma coisa boa, o que aconteceu?", perguntou Kydele. Ela dobrou seus braços reais graciosamente à sua frente, mas seus braços de névoa agitavam-se inquietos. Não estavam inteiramente sob seu controle.

Bom que Xenagos tenha se tornado um deus?, perguntou Crufix. Bom que Elspeth o tenha derrubado? Bom que ela tenha caído por sua vez?

Kydele deu um de ombros impotente.

"A ordem foi restaurada", disse ela. "Tudo está certo em Theros e Nyx. Xenagos não ameaça mais o mundo, e os Nascidos na Nyx voltam a servir e guiar os mortais como devem."

Crufix esperou. Ele estava sempre esperando.

"Então por que", concluiu ela, "tudo parece tão errado?"

Você fala do maior mistério de todos. Da existência, e de seu propósito.

"A ascensão de Xenagos levanta questões perturbadoras", disse Kydele. "Sobre Nyx, e a natureza dos deuses. Os filósofos ensinam que os deuses são eternos, imutáveis. Mas se um deus pode nascer e morrer em um espaço de semanas, então o que isso diz sobre os outros?"

Isso, disse Crufix, não é mistério algum. É simplesmente uma pergunta cuja resposta poucas pessoas realmente desejam ouvir.

"Eu desejo ouvi-la", disse ela imediatamente.

Crufix a observou por um longo momento antes de falar, inescrutável.

Os deuses são crenças que tomaram forma dentro do tecido de Nyx.

"Os deuses inspiram a crença", disse Kydele. "Certamente os deuses vieram primeiro."

Eu sou o mais velho, disse Crufix. Mas mesmo eu não precedo a crença mortal. A primeira vez que um mortal de Theros olhou para o céu noturno e disse "Eu me pergunto...", alguma parte de mim passou a existir. Sou o desconhecido, o incognoscível. Sou o que habita além do horizonte distante.

Crufix, Deus dos Horizontes | Arte de Daarken

Assisti enquanto os outros tomavam forma. A Morte veio em seguida, suprema e inescapável. Depois sol e mar, floresta e forja. Depois disso, domínios mais abstratos emergiram — guerra, decepção, intuição, amor.

"Amor?", disse Kydele.

De fato. E mais, que os mortais esqueceram. Ou você achava que Heliod sempre fora o deus do sol?

"Como pode ter havido outros deuses? Nós nos lembraríamos deles."

Se você se lembrasse deles, disse Crufix, eles ainda existiriam. Assim que Heliod ocupou seu lugar no panteão, ele era o deus do sol — e sempre fora. Os mortais têm memória curta nessas questões. Se tivessem memórias mais longas, Nyx se despedaçaria com rivalidades e contradições.

Quatro braços abriram-se em um gesto de derrota onipresente.

Talvez eu nem tenha sido o primeiro, disse Crufix. Como eu saberia?

Kydele nada disse por um longo tempo.

"Então os deuses são mais frágeis do que parecem", disse ela. "E sua existência depende de os mortais acreditarem que não são?"

Assim parece.

"Por quê?"

Por que o tempo passa?, perguntou Crufix. Por que a água corre ladeira abaixo? Estrelas moveram-se dentro de seu manto, a sugestão de um de ombros. Algumas coisas simplesmente são.

"Os filósofos em Meletis debatem tais coisas", disse Kydele. "A causa do movimento, a natureza do tempo."

Então que debatam, disse Crufix, com uma dureza atípica. Se aprenderem as respostas, talvez o povo passe a venerá-los em vez de nós.

"O senhor está dizendo que não sabe?"

Crufix voltou seu capuz em direção a ela, e ela sentiu uma súbita onda de vertigem, a sensação de que estava olhando não para um companheiro, mas para baixo, em um abismo profundo cheio de estrelas e escuridão.

Estou dizendo que, se houver uma razão — se houver algum propósito por trás da natureza dos deuses — então eu não desejo saber.

"É o seu dever saber", disse Kydele. "Esse é o seu propósito... não é?"

Ela nunca contradissera Crufix tão diretamente. Muitos outros deuses não tolerariam tal impudência, mesmo de um oráculo.

Crufix apenas suspirou, um som como a brisa noturna.

Sou o conhecedor de tudo o que é conhecido em Theros, e de muito que não é, disse ele cansadamente. Mas, ultimamente, aprendi coisas, sobre o nosso mundo. Sobre sua segurança. Ele pausou. Isso a surpreende, que eu ainda possa ser capaz de aprender?

"Sim, surpreende."

De fato, fez muito mais do que surpreender Kydele. A perturbou. Crufix era o deus dos mistérios. Ele conhecia a resposta para cada pergunta, para que pudesse decidir quais dessas respostas os mortais poderiam saber com segurança... ou assim ela pensava.

Deveria.

Ele nada disse depois disso.

"O que o senhor aprendeu?", perguntou ela.

Tem certeza de que deseja saber?

"Tenho."

Se uma oráculo de Crufix recuasse diante da verdade, o que lhe restaria?

Não tenha, disse Crufix. O conhecimento é cruel. Ele partirá seu coração e testará suas lealdades. Tem certeza de que deseja esta maldição?

Ditame de Crufix | Arte de Daarken

Kydele tirou um tempo para considerar. Ela sabia coisas com as quais nenhum outro mortal sonhava. Olhara para baixo em Nyx tantas vezes que se tornara algo comum, assistira Crufix gravar os nomes dos deuses em sua grande árvore para bani-los de Theros. Conhecimento era poder.

Mas Crufix era o deus dos horizontes, e algumas coisas nunca foram destinadas a ser conhecidas. Não importa quão longe você viaje, há sempre outro horizonte.

Exceto aqui, no último horizonte.

"Sim", disse ela. "Tenho certeza."

Pois bem, disse Crufix.

Ele caminhou em silêncio, e ela esperou. Por fim, chegaram à própria borda do mundo, onde o oceano rugia para dentro das profundezas infinitas de Nyx e os terrenos do templo de Crufix se estendiam como um promontório em um mar de noite.

Crufix parou e olhou para Nyx.

Theros é um de muitos mundos. Você sabia disso?

"Presumo que não esteja falando de Nyx, ou do Mundo Inferior."

Não. Existem mundos inteiros lá fora, além de Theros, além de Nyx. Mundos que você não consegue ver quando olha para o céu, lugares onde os deuses de Theros não têm influência. Mundos que você — e eu — nunca poderemos visitar, com suas próprias civilizações, suas próprias histórias, até mesmo suas próprias leis físicas.

"Seus próprios deuses?"

Novamente, a sensação de vertigem conforme Crufix a observava.

Não, disse ele. A palavra soou como um sino. Alguns, talvez, tenham deuses como nós. Mas, como regra, não. Nós somos... um fenômeno local.

"E o senhor só aprendeu isso recentemente?"

Crufix balançou o que passava por sua cabeça.

Não. Existem seres que podem caminhar entre esses mundos. O primeiro deles a pôr os pés em nosso mundo o fez há muito tempo. Sou o conhecedor de todas as coisas que são conhecidas neste mundo, e aprendi tudo o que ela sabia.

Kydele pensou por um momento sobre tudo o que ouvira e vira de seu posto nas grandes árvores de Crufix.

"Elspeth era um desses... caminhantes dos mundos, não era?"

Astuta, disse Crufix. Sim. Ela era. Mas não apenas ela. Também seu companheiro Ajani, o leonino que carregou o corpo dela para fora de Nyx. Também a tritã Kiora, que se chamou de Calafe e atraiu a ira de Tassa.

E também, continuou ele, era Xenagos.

Xenagos, o Folião | Arte de Jason Chan

Kydele assentiu.

"Ele viajou para outros mundos onde não havia deuses... e percebeu que poderia se tornar um?"

Quase, disse Crufix. Ele viajou para outros mundos onde não havia deuses, e decidiu que todos em Theros deveriam saber que os deuses eram uma mentira.

"Não creio que ele tenha tido sucesso", disse Kydele.

Não teve, disse Crufix. As pessoas viram o caos. Viram a destruição. Viram, em suma, um usurpador em um domínio que, de resto, permanecera, por todas as aparências, indefinidamente estável. Talvez, se ele tivesse vivido para ocupar seu lugar no panteão, as pessoas poderiam lembrar que nem sempre houvera um deus da folia, e passariam a se perguntar o que isso significava sobre os outros deuses.

Crufix deu outro de ombros.

Suspeito, no entanto, que teriam aprendido a adorá-lo, e esquecido suas origens mortais. Teriam passado a acreditar que ele sempre estivera lá, aguardando sua veneração. Esse é o caminho das coisas. No fim, ele não ameaçou nada.

"Então não é ele quem o perturba", disse Kydele.

Crufix riu — riu de verdade, um som oco e ecoante.

Você vê muita coisa, Minha Oráculo.

Ele dobrou suas mãos estreladas à sua frente.

Sim, estou perturbado, e não pela ascensão de Xenagos, nem pela existência desses planinautas.

Estou perturbado pelo que perturba a eles.

Ali estava. A borda escura e irregular ao redor da qual vinham pisando com cuidado.

A tritã Kiora, disse Crufix, veio para cá de um mundo cuja existência fora ameaçada por algo chamado Eldrazi. Eles são vastos e terríveis, o equivalente a qualquer deus. E eles comem mundos, Minha Oráculo. Arrancam a carne dos ossos da terra e deixam uma casca morta, partindo para a próxima.

Aquele que Trai | Arte de Tomasz Jedruszek

O leonino Ajani enfrentou um inimigo imensamente poderoso, um companheiro planinauta e um dragão. Ele é insondavelmente antigo, até mesmo para mim. Ele busca poder infinito e vida imortal. Seus planos abrangem mundos e séculos, e ele não poupará nada nem ninguém que se coloque em seu caminho.

Ultimato Cruel | Arte de Todd Lockwood

E a humana Elspeth... ela veio para cá de um lugar chamado Phyrexia, um mundo inteiro de pele esfolada e metal retorcido, governado por seres cruéis e monstruosos que se intitulam deuses. É uma afronta à natureza, uma paródia sombria da vida que corrompe tudo o que toca e toca tudo com o tempo. E já abriu seu caminho de um mundo para outros.

Derrota | Arte de Igor Kieryluk

Crufix olhou para Nyx, a noite encarando a noite.

Se qualquer uma dessas coisas vier para cá, para o nosso mundo, disse ele, até mesmo os deuses podem ser impotentes para detê-las. E todas as suas orações, todas as suas súplicas, cairão em ouvidos moucos de um céu silencioso enquanto este mundo é despedaçado ou refeito ou pior.

Uma a uma, as estrelas no manto de Crufix começaram a tremeluzir e morrer, até restar apenas a escuridão.

É isso o que eu temo, Minha Oráculo. É isso o que perturba a mente de um deus. Theros é um peixinho nadando em um lago profundo e imóvel, alheio às profundezas, sem saber que algo maior surge para devorá-lo em um instante.

Ele voltou-se para ela, quatro braços abertos, um buraco de pura escuridão contra a luz estrelada de Nyx.

Então agora você sabe. O que fará com este conhecimento?


Diantha esperou.

"Não, Criança", disse a oráculo. "Não há nada. Nada mesmo."

Ela nada mais disse, e Diantha tomou aquilo como uma dispensa. Ela se virou para sair.

Atrás dela, a oráculo olhava fixamente pela janela, além da cidade, além do horizonte, como se contemplasse uma distância infinita.